Farto de palavras tão desprovidas de significado como a própria vida, hoje espero poder escrever algo.
Ainda que a vida seja desprovida de qualquer significado, não o são as vivências de cada um e é entre gestos e palavras que o mundo passa de um mero amontoado de reacções químicas para um fruto de reflexão que nos preenche, a nós próprios e a todos os que delas partilham, de palavras, objectos, acontecimentos que no final de contas dão em eventos, memórias e até em toda uma vida.
"olá! nome? idade? ddtc?" Um gesto que esteve tão na moda de todos os utilizadores do dito IRC, era quase como que um ritual, por vezes desprovido de qualquer significado, simplesmente feito por rotina. Para muitos o poderá ter sido, até mesmo para o "Pedro" (chamo-lhe Pedro, tal como o poderia chamar de "João", "Guilherme", "Rodolfo", ...) o terá sido por várias vezes, mas não naquela noite, não no seguimento da conversa.
Contou-me ele tantas vezes esta história que ainda hoje me rio só de pensar como uma só pessoa pode mudar toda uma vida.
(21:53)- Lanc3lot_ - Oi!
(21:53)- Sexi___simbol - olá! nome? idade? ddtc?
(21:54)- Lanc3lot_ - rui 22 lx tu?
(21:55)- Sexi___simbol - lx onde?
(21:55)- Lanc3lot_ - parque das nações, nome? idade? ddtc?
(21:55)- Sexi___simbol - para que queres saber?
(21:56)- Lanc3lot_ - pq estou a falar contigo
(21:56)- Lanc3lot_ - é o mínimo
(21:56)- Lanc3lot_ - que me podes dizer
(21:58)- Sexi___simbol - Raquel, 21, tb d lx
(21:58)- Sexi___simbol - tens foto?
. . .
(01:14)- Sexi___simbol - lol
(01:14)- Lanc3lot_ - xau *****************************************
(01:15)- Sexi___simbol - já vais? agora que eu estava a gostar de falar ctg
(01:15)- Lanc3lot_ - amanha tenho de acordar cedo, tem mesmo que ser
E como esta houve tantas outras conversas… Tantas que mais tarde e mais cedo levaram a que “Rui” e “Raquel marcassem um encontro.
Encontros na vida real não são como encontros na net e como tal só posso acreditar nas palavras de “Pedro” (até então “Rui”, aos olhos de “Raquel”), já que para a vida real não há logs como no IRC. Mas deixando de divagar e voltando à vida do “Pedro”.
Marcaram um cinema, no Vasco da Gama e ainda que já na altura se falasse nos perigos dos encontros através da net, eles decidiram encontrar-se sozinhos. Lá estava ele, “Pedro”, ou “Rui” para a “Raquel”, de jeans de uma qualquer dessas marcas comerciais, num tom de ganga escura, com uma qualquer t-shirt da marca da moda assente sobre seu corpo, revelando o bronze que denunciava uma ida à praia ainda antes de o Verão começar. O cheiro fresco a perfume e desodorizante denunciavam a atenção especial que dedicou a si mesmo só para lhe agradar. A ela, Raquel
E ela lá apareceu, já o filme tinha começado e estava ele junto da porta do cinema lusomundo, esperando por ela, quando viu alguém olhar na sua direcção, perdida à procura de alguém. “Não podia ser ela, ou se calhar até podia…” pensou para si, e o coração disparou, não fossem aqueles cabelos ruivos fogo queimando seus olhos, contrastando em tudo com o olhar verde e exótico que assentou sobre o seu, aquele sorriso que se formou na cara em que anteriormente se deparava a dúvida de quem procura alguém, de quem se encontra perdida. Agora achada. Tinha de ser ela.
E era.
Chegou-se junto dele, cada segundo gravado a fogo em sua mente, em seu coração.
- Rui?
Ainda atónito e meio gaguejando, conseguiu forçar a sua voz a dizer “És a Raquel?”
- Sim. – aquele sorriso rasgado em sua cara, belo, belo, belo - Não tinhas 22 anos?
- Bem, na verdade tenho 17 e chamo-me Pedro, mas de certo que também não te chamas Raquel! – desculpou-se rindo.
- Por acaso não, mas tenho mesmo 21. Não iamos ver o filme?
- Ah sim, o filme, já começou. Queres ir na mesma?
- Claro, viemos ao cinema. É esse o plano, certo?
- Yah, yah… Mas sei lá, podias ter mudado de ideias.
- Vá, vamos lá ao cinema, já falamos melhor.
E usando as palavras do próprio “Quando senti a mão dela tocar na minha, arrastando-me pelo cinema adentro, soube que era levado por um anjo”, um anjo que sem nome o arrastava para um sala de cinema escura. E numa sala de cinema escura deram o primeiro beijo. E o segundo. E tantos mais que tanto Pedro como Raquel não sabem que filme viram.
Quando saíram, saíram de mãos dadas, com um cúmplice olhar, nos olhos de Pedro podia-se ver o brilho de um amante perdido em algo mais do que nada. Nos olhos dela podiam-se ver olhos verdes e exóticos.
- Desculpa… Mas, como te chamas mesmo? – perguntou o Pedro a medo, afinal de contas não se ama quem não tem nome.
- “Ana” (uma vez mais Ana poderia ser Joana ou Tânia ou qualquer outro nome).
Ainda que a vida seja desprovida de qualquer significado, não o são as vivências de cada um e é entre gestos e palavras que o mundo passa de um mero amontoado de reacções químicas para um fruto de reflexão que nos preenche, a nós próprios e a todos os que delas partilham, de palavras, objectos, acontecimentos que no final de contas dão em eventos, memórias e até em toda uma vida.
"olá! nome? idade? ddtc?" Um gesto que esteve tão na moda de todos os utilizadores do dito IRC, era quase como que um ritual, por vezes desprovido de qualquer significado, simplesmente feito por rotina. Para muitos o poderá ter sido, até mesmo para o "Pedro" (chamo-lhe Pedro, tal como o poderia chamar de "João", "Guilherme", "Rodolfo", ...) o terá sido por várias vezes, mas não naquela noite, não no seguimento da conversa.
Contou-me ele tantas vezes esta história que ainda hoje me rio só de pensar como uma só pessoa pode mudar toda uma vida.
(21:53)- Lanc3lot_ - Oi!
(21:53)- Sexi___simbol - olá! nome? idade? ddtc?
(21:54)- Lanc3lot_ - rui 22 lx tu?
(21:55)- Sexi___simbol - lx onde?
(21:55)- Lanc3lot_ - parque das nações, nome? idade? ddtc?
(21:55)- Sexi___simbol - para que queres saber?
(21:56)- Lanc3lot_ - pq estou a falar contigo
(21:56)- Lanc3lot_ - é o mínimo
(21:56)- Lanc3lot_ - que me podes dizer
(21:58)- Sexi___simbol - Raquel, 21, tb d lx
(21:58)- Sexi___simbol - tens foto?
. . .
(01:14)- Sexi___simbol - lol
(01:14)- Lanc3lot_ - xau *****************************************
(01:15)- Sexi___simbol - já vais? agora que eu estava a gostar de falar ctg
(01:15)- Lanc3lot_ - amanha tenho de acordar cedo, tem mesmo que ser
E como esta houve tantas outras conversas… Tantas que mais tarde e mais cedo levaram a que “Rui” e “Raquel marcassem um encontro.
Encontros na vida real não são como encontros na net e como tal só posso acreditar nas palavras de “Pedro” (até então “Rui”, aos olhos de “Raquel”), já que para a vida real não há logs como no IRC. Mas deixando de divagar e voltando à vida do “Pedro”.
Marcaram um cinema, no Vasco da Gama e ainda que já na altura se falasse nos perigos dos encontros através da net, eles decidiram encontrar-se sozinhos. Lá estava ele, “Pedro”, ou “Rui” para a “Raquel”, de jeans de uma qualquer dessas marcas comerciais, num tom de ganga escura, com uma qualquer t-shirt da marca da moda assente sobre seu corpo, revelando o bronze que denunciava uma ida à praia ainda antes de o Verão começar. O cheiro fresco a perfume e desodorizante denunciavam a atenção especial que dedicou a si mesmo só para lhe agradar. A ela, Raquel
E ela lá apareceu, já o filme tinha começado e estava ele junto da porta do cinema lusomundo, esperando por ela, quando viu alguém olhar na sua direcção, perdida à procura de alguém. “Não podia ser ela, ou se calhar até podia…” pensou para si, e o coração disparou, não fossem aqueles cabelos ruivos fogo queimando seus olhos, contrastando em tudo com o olhar verde e exótico que assentou sobre o seu, aquele sorriso que se formou na cara em que anteriormente se deparava a dúvida de quem procura alguém, de quem se encontra perdida. Agora achada. Tinha de ser ela.
E era.
Chegou-se junto dele, cada segundo gravado a fogo em sua mente, em seu coração.
- Rui?
Ainda atónito e meio gaguejando, conseguiu forçar a sua voz a dizer “És a Raquel?”
- Sim. – aquele sorriso rasgado em sua cara, belo, belo, belo - Não tinhas 22 anos?
- Bem, na verdade tenho 17 e chamo-me Pedro, mas de certo que também não te chamas Raquel! – desculpou-se rindo.
- Por acaso não, mas tenho mesmo 21. Não iamos ver o filme?
- Ah sim, o filme, já começou. Queres ir na mesma?
- Claro, viemos ao cinema. É esse o plano, certo?
- Yah, yah… Mas sei lá, podias ter mudado de ideias.
- Vá, vamos lá ao cinema, já falamos melhor.
E usando as palavras do próprio “Quando senti a mão dela tocar na minha, arrastando-me pelo cinema adentro, soube que era levado por um anjo”, um anjo que sem nome o arrastava para um sala de cinema escura. E numa sala de cinema escura deram o primeiro beijo. E o segundo. E tantos mais que tanto Pedro como Raquel não sabem que filme viram.
Quando saíram, saíram de mãos dadas, com um cúmplice olhar, nos olhos de Pedro podia-se ver o brilho de um amante perdido em algo mais do que nada. Nos olhos dela podiam-se ver olhos verdes e exóticos.
- Desculpa… Mas, como te chamas mesmo? – perguntou o Pedro a medo, afinal de contas não se ama quem não tem nome.
- “Ana” (uma vez mais Ana poderia ser Joana ou Tânia ou qualquer outro nome).
E assim Pedro amou Ana.
E assim Pedro confiou em Ana.
E assim Ana mostrou a Pedro que a vida é muito mais do que o que ele jamais sonhara. Fê-lo feliz como jamais outra qualquer o tinha feito. Fê-lo subir aos sete céus.
E então a queda foi grande.
Pedro descobriu da pior maneira que Ana não lhe era fiel. Não só não lhe era fiel como não lhe fora honesta desde o inicio.
- És uma puta! – um grito solto no ar.
- Cala-te! Vê-se percebes! É a única maneira de poder pagar os estudos! Sou uma acompanhante de luxo!
- Sim! Uma puta! E eu sou o quê? Um futuro cliente? Um investimento a longo prazo? Foda-se! És ridícula!
- Não! Tu és o Pedro, o Pedro de quem tanto gosto, que me acaricia e que gosta de mim como sou. – entre soluços e lágrimas.
- Gostas? Gosto? Eu amo-te Ana! Mas isto? Isto é demais para mim! Jamais hei de conseguir viver com isto, vê se compreendes!
- Mas é como decidi viver a vida! É como a vou viver! E não vais ser tu nem ninguém a mudar isso!
- Meu Deus! Ana, eu quero muito poder estar contigo e poder amar-te… Mas sabendo que vais estar nos braços de outro homem assim que saíres de ao pé de mim? Saber que esse teu corpo é de outro homem por um preço? Não consigo, simplesmente não consigo.
- Tu não me compreendes Pedro, é a vida que eu decidi tomar, é a minha maneira de pagar os estudos, de poder fazer a minha vida! Desde cedo tive de fazer sacrifícios para poder fazer a minha vida. Eu não tenho pai nem mãe, sim, tenho uma avó que me dá casa, mas não mais que isso.
- Ana! Eu simplesmente não consigo… Ou és tu ou sou eu! Ou seguimos a nossa vida e me respeitas ou então segue a tua vida!
- Está bem Pedro… Está bem… Adeus…
- Adeus? Foda-se! Vai-te embora então sua puta! Fode-te! Tu e todos os teus clientes! Vão todos para o inferno!
É assim a vida, feita de escolhas, escolhas que fazemos por nós e pelos outros. E a verdade é que por vezes damos passos em falso e não temos a humildade para reconhecer que o que fizemos foi errado. Ainda hoje o “Pedro” me diz que se fosse hoje tinha compreendido, ainda hoje amigos do “Pedro” me dizem que a “Ana” foi uma puta e que devia ter pensado neles e não só nela quando começou aquele namoro.
Ainda hoje a vida contínua e a história do “Pedro” continua. Com ou sem “Ana”.
Antes de me despedir dos meus leitores, queria só agradecer ao “Pedro” por me disponibilizar os logs do IRC e por me deixar partilhar um pouco da história dele. Queria também avisar desde já que todos os nomes e nicknames usados neste texto são fictícios. Peço ainda desculpa a todos os leitores que acharam este texto deveras entediante e mais desculpa ainda a todos os que gostaram, pois muito mais poderia ter sido dito sobre a história do “Pedro” e da “Ana” e muito mais ainda há de ser dito.
E assim Ana mostrou a Pedro que a vida é muito mais do que o que ele jamais sonhara. Fê-lo feliz como jamais outra qualquer o tinha feito. Fê-lo subir aos sete céus.
E então a queda foi grande.
Pedro descobriu da pior maneira que Ana não lhe era fiel. Não só não lhe era fiel como não lhe fora honesta desde o inicio.
- És uma puta! – um grito solto no ar.
- Cala-te! Vê-se percebes! É a única maneira de poder pagar os estudos! Sou uma acompanhante de luxo!
- Sim! Uma puta! E eu sou o quê? Um futuro cliente? Um investimento a longo prazo? Foda-se! És ridícula!
- Não! Tu és o Pedro, o Pedro de quem tanto gosto, que me acaricia e que gosta de mim como sou. – entre soluços e lágrimas.
- Gostas? Gosto? Eu amo-te Ana! Mas isto? Isto é demais para mim! Jamais hei de conseguir viver com isto, vê se compreendes!
- Mas é como decidi viver a vida! É como a vou viver! E não vais ser tu nem ninguém a mudar isso!
- Meu Deus! Ana, eu quero muito poder estar contigo e poder amar-te… Mas sabendo que vais estar nos braços de outro homem assim que saíres de ao pé de mim? Saber que esse teu corpo é de outro homem por um preço? Não consigo, simplesmente não consigo.
- Tu não me compreendes Pedro, é a vida que eu decidi tomar, é a minha maneira de pagar os estudos, de poder fazer a minha vida! Desde cedo tive de fazer sacrifícios para poder fazer a minha vida. Eu não tenho pai nem mãe, sim, tenho uma avó que me dá casa, mas não mais que isso.
- Ana! Eu simplesmente não consigo… Ou és tu ou sou eu! Ou seguimos a nossa vida e me respeitas ou então segue a tua vida!
- Está bem Pedro… Está bem… Adeus…
- Adeus? Foda-se! Vai-te embora então sua puta! Fode-te! Tu e todos os teus clientes! Vão todos para o inferno!
É assim a vida, feita de escolhas, escolhas que fazemos por nós e pelos outros. E a verdade é que por vezes damos passos em falso e não temos a humildade para reconhecer que o que fizemos foi errado. Ainda hoje o “Pedro” me diz que se fosse hoje tinha compreendido, ainda hoje amigos do “Pedro” me dizem que a “Ana” foi uma puta e que devia ter pensado neles e não só nela quando começou aquele namoro.
Ainda hoje a vida contínua e a história do “Pedro” continua. Com ou sem “Ana”.
Antes de me despedir dos meus leitores, queria só agradecer ao “Pedro” por me disponibilizar os logs do IRC e por me deixar partilhar um pouco da história dele. Queria também avisar desde já que todos os nomes e nicknames usados neste texto são fictícios. Peço ainda desculpa a todos os leitores que acharam este texto deveras entediante e mais desculpa ainda a todos os que gostaram, pois muito mais poderia ter sido dito sobre a história do “Pedro” e da “Ana” e muito mais ainda há de ser dito.