Saturday, November 28, 2009

Ele disse


Ele disse, "Amo-te".
Ela respondeu, "Eu também".
Se ao menos o seu namorado soubesse.

Bato à porta, nada. A vizinha do lado vem à janela, olha para mim com um olhar estranho. Quase condescendente. Bato à porta, uma voz do outro lado "Quem é?". Ao jeito da cumplicidade que o tempo nos deu, digo só "Sou eu". Oiço o som do trinco a soltar-se enquanto olho para o relógio, já é tarde. Sempre o mesmo tick-tack, malditos swatch e a sua precisão. A sua sempre enervante batida mais lenta que a batida do coração. Ou então não, pois não bate mais meu coração ao ritmo do teu. "Que se passa?", uhm? Olho para ela, "Nada."

Cheguei um pouco antes das quatro, em jeito de surpresa.
-Entra. - disse ela com aquele olhar apaixonado.
Olhei para um lado e para o outro, não vi ninguém e antes que ela desse conta estávamos de lábios colados.
Puxou-nos para dentro, fechou a porta e disse-me, sempre com um sorriso nos lábios.
- ÉS LOUCO? Sabes bem como são as minhas vizinhas! - disse entre sorrisos.
Peguei-lhe pela cintura.
- Por ti, sabes bem que sim.
Ela tentou fugir um pouco para trás, sempre, sempre com os lábios em arco, sorriso rasgado e a pequena ruga no canto do olho de seu sorriso verdadeiro. Envolvi-a num quente e doce abraço. Quando a levantei um pouco do chão berrou:
- PARA! RUI! Paaaaaa... - desmancha-se em risinhos - Para!
Atirei-a com jeito para o sofá. Gostei da cara que fez, daquele rosto belo e delicado.

Sento-me do seu lado. É engraçado as analogias que a nossa mente por vezes faz. À medida que me enterro na almofada sinto que me afundo ainda mais nos problemas do meu dia. Que esta visita é só uma fuga. A minha única fuga. Ainda bem que a tenho do meu lado.

Tenho andado um pouco fora de mim, sempre ocupado. Acho que ela notou, se calhar devia pedir-lhe desculpas por andar tão ausente. Quem me dera ter mais tempo para estar com ela.
É horrível quando o cérebro embirra com algo, agora não consigo deixar de notar na mesa que está um pouco torta. Endireito-a. Quem me dera algo para descarregar este peso da mente.

Senti-me nervoso do seu lado. Sinto-me sempre. Ainda hoje, tanto tempo depois de a ter conhecido.
Devagarinho toquei-lhe no rosto.
- Estás nervoso?
- Um pouco. Deixas-me assim. – pisquei-lhe o olho.

- És tão piroso! Nem sei porque gosto de ti.
Rimo-nos.
Estava feliz. Gostei de a ver assim.
Passei-lhe a mão pelo cabelo e enterrei os meus dedos, fazendo-lhe festinhas na nuca. Beijamo-nos. A minha mão deslizou pelo seu corpo fora. Passei-a pelo decote e apalpei-lhe um seio. Dei por mim envolto nela, desapertei-lhe o soutien.
- Rui! Porque me abriste o soutien?
- Até parece que não sabes...
Riu-se.
Atirei-me a ela e caímos os dois do sofá.
Tirou-me a t-shirt. Puxei-lhe a saia.
Levantei um pouco o top que ela tinha vestido e beijei-a no mamilo. Desci lentamente pela sua lisa barriguinha com os lábios. Beijando a pele, beijando o umbigo, beijando o monte de Vénus.
Começou a gemer.
Beijei-a na virilha.
- Vais continuar a provocar-me?
Deixo de a provocar. Ela perde o controlo, dá um encontrão com a perna da mesa.
- Estás bem? - perguntei-lhe preocupado.
- Cala-te e fode-me...
Adoro quando somos assim no sexo, não a deixei esperar nem mais um minuto.

"Estou feliz por estar aqui". Nem me ouve.

Dissemos asneiras, dissemos coisas belas. Nem ligámos mais às palavras. Disse coisas como:
- Gosto de ti! - ou - És a melhor.
Ela respondeu:
- Estou a ficar louca. - ou - Não pares.
Acabamos os dois. Os nossos corpos suados, envoltos um no outro. Deixamo-nos estar um pouco abraçados.
Disse-lhe:
- Amo-te.
Ela respondeu:
- Eu também Rui.
Nesse momento tive a certeza que somos as duas pessoas mais felizes do mundo.
Estivemos um pouco mais neste jogo até que ela reparou nas horas.

- Já passam das seis. Devias ir embora.
- Já vou, já vou. – disse espreguiçando-me lentamente.
- Vá, vá! Sabes que começo a stressar e depois quem é que me atura? – riu-se.
Levantei-me e comecei a vestir-me. Vesti a t-shirt e as calças. Pus as meias e as sapatilhas.

Olho para os meus pés, tenho o atacador do sapato desatado. Ato-o.
Levanto-me e digo "Tenho de ir". Ela responde como sempre.

- Já vais Rui?
- É melhor, como tu própria disseste já passam das seis.
Fui até à porta e ela veio atrás de mim. Sei que ela não queria que eu fosse. Também não queria partir. Queria ficar com ela para sempre. Quero ficar com ela para sempre. Chegou ao pé de mim e beijámo-nos uma vez mais.
- O que fazes logo? - perguntei.
- Ainda não sei, tens alguma ideia? - começou a rir-se. Ri-me também. Gostamos os dois destes risinhos cúmplices.
- Podíamos sair logo.
- Ok, vou só tomar um banho, por me bonita para ti. - piscou-me o olho.

- Quem é piroso agora?
- Cala-te! – deu-me um empurrãozinho, ia caindo nas escadas.
-Bom, vou indo. Amo-te.
-Eu também.

A porta fechou-se à minha frente. Olhei para o céu, estava estrelado. Foi um bom dia. Olhei para a esquerda, mesmo a tempo de ver a nesga de luz entre as cortinas da vizinha desaparecer.

Antes de sair, olho uma vez mais para ela, tem o cabelo molhado e está bem aperaltada. Digo "Amo-te". Nenhuma resposta do corredor que deixo para trás desta porta. Foi um dia mau.

Quem me dera ter o tempo para estar com ela, deve estar zangada comigo por estarmos tão pouco tempo juntos. Nem temos tempo para nada. Afinal de contas quando olhei para o relógio antes de entrar já eram oito. São agora oito e vinte, nem meia hora tive para estar com ela. É difícil ser-se Pedro. É difícil ser-se eu.



“Ele disse, "Amo-te".
Ela respondeu, "Eu também".
Se ao menos o Pedro soubesse.”

5 comments:

Anonymous said...

quem escreve assim nao é gago :)

Omni said...

brilhantes transiçoes, algo confusas mas dignas d se notarem

Sara said...

mto bom! agora que me explicas-te ja consegui ver a mudanca rui pedro rui pedro. Sabes isto dos states slow me o raciocinio :)

dona-peppers said...

Tenho a leve impressão de já ter andado por aqui...

Unknown said...

Eu disse que havia de chegar o dia em que aqui deixava um comment...
Voltei agora a ler o teu texto por acaso. Desta vez li-o com um pouco mais de distância, tentei esquecer um pouco que eras tu que estavas por detrás do texto.
Algo de bom teve de ter pois fez com me sentisse próxima do Pedro (suponho que não estavas à espera de eu te dizer isto acerca de 1personagem tua tão cedo). Mais do que isso, o teu texto transmitiu-me melancolia...
Sei que toca a cada um escolher a sua interpretação mas o que eu vi foi a solidão. A relação do Pedro e da "ela" morreu algures no tempo e enquanto ela ainda tem na boca o travo do que entre eles existiu, a vida dela continuou sem ele ("nem notou").
Escreve mais!