- PUTA! DIZ-ME QUEM É O PAI DA CRIANÇA!
- JÁ TE DISSE! Eu não sPAFT!
Bate a porta.
Caio sobre os meus joelhos.
Ahn. Uma fria lágrima desce-me pelo rosto.
Em meus lábios, mistura-se com o quente sangue de um golpe aberto.
Ahn. Porquê? Ahn. Como?
Tapo a cara em vergonha enquanto me desmancho em lágrimas.
Como é que isto pode ter acontecido? Não é possível. NÃO É POSSÍVEL!
QUE MERDA! FODA-SE! PORQUE É QUE É SEMPRE ASSIM! SÓ ME APETECE PARTIR ESTA MERDA TODA! Levanto-me e dou um pontapé na merda da mesa. Au! CARALHO! Olho-me para o espelho e vejo ferro e sal, sangue e lágrimas a descer-me pela cara. - PUTA! - grito enraivecida - PUTA! - esmurro o espelho - PUTA! PARVA! CABR... AU!
Olho para a minha mão. O sangue a escorrer dos pedaços de espelho bem cravados.
Corro para a casa de banho, merda tanto sangue. Abro a torneira e meto a minha mão lá de baixo. Ah! O conforto da água fria. Onde pus a pinça? Remexo no meu armário e lá está, ao lado da maquilhagem de noite. Au! Estão mesmo enterrados na carne. Au! Tens de ser forte miúda. Au! Só falta mais este. Au!
Ufa! Já está. Devia por betadine nisto. Onde é que tenho o meu estojo de primeiros socorros? Está debaixo do armário. Não? Deixa-me pensar... Na sala! Vou a correr para lá e encontro. Limpo a ferida e envolvo-a em gaze. Vai deixar marca, mais uma nesta mão cicatrizada.
Sento-me no pufe.
A solidão.
Como é que a minha vida descambou nisto? Sei lá. Se ao menos tivesse acabado o secundário se calhar nunca tinha vindo aqui parar. Eu até gostava da informática e de matemática. Ou então podia ter seguido dança, se ao menos tivesse ficado no ballet quando era míuda! Ou piano! Também gostava de música. Era giro.
Ai o desespero.
Mas não, tinha de ter saído de casa. Parva! O meu pai bem me dizia "Os homens são uns manhosos! Tu tens de ter cuidado! Se não te deixo sair à noite é porque sei bem o que acontece por essa noite fora! Tu tem cuidado!" e eu gritava-lhe sempre "TODAS AS MINHAS AMIGAS VÃO SAIR, PORQUE É QUE EU NÃO POSSO IR? ODEIO-TE!" e ia me trancar no quarto. Ele tinha razão. Ahn. Mais uma lágrima.
Assoo-me e limpo o sangue do lábio.
Foi num desses acessos de fúria que fiz as cicatrizes que tenho na mão. Outras, mais velhas. Que estúpida!
O meu pai é que sabia. Mas também não vou voltar para casa. Não posso! Não assim, grávida. O que é o meu pai iria dizer? Oh que estúpida!
Fogo, era tão bom ser criança. Os amigos, a brincadeira, éramos todos inocentes. Não havia maldade. O ballet, a piscina. Adoro a água fria.
E a mãe? O abraço quente da mãe. Porque é que tinhas de ter partido? Porque é que tinhas de ir para o outro lado? A vida não é justa. Nunca foi.
E eu parva deixei o ballet. Também não podia, custava-me lembrar de ti. Ali, durante a aula, sempre com um sorriso. Eras a mamã da menina, da artista. E eu uma estrela, a mais radiante de todas. Pelo menos para ti. Não, não só para ti, eu era mesmo boa naquilo.
Vou até ao quarto, e puxo uma caixa de cartão que está debaixo da cama, remexo nas coisas e tiro um pequeno par de sabrinas de ballet. É pena não me servirem. Volto a colocá-las dentro da caixa.
No início custou viver sem a mamã, mas o papá era o melhor. Arranjou-me aulas de piano para não pensar mais no ballet. Agora que penso nisso, foi um querido. Era giro brincar com o piano em casa.
Ele sempre me ensinou tudo o que eu queria saber e sempre me deixou fazer tudo o que queria, desde que fosse em casa. Quando era miudita estava tudo bem, os meus amigos iam sempre lá visitar-me e até era porreiro porque tínhamos tantas coisas divertidas para fazer. O trampolim, a piscina de bolas, os brinquedos, as barbies e as casas. E no verão a piscina. Como eu amava nadar.
Tinha sempre a casa cheia. Não havia espaço para a solidão. Com 11, 12 anos o meu pai não me deixava sair a noite, mas não tinha mal. Fazíamos as festas lá em casa e eram as melhores festas do mundo.
Até que cresci. E os meus amigos começaram a deixar de ir a minha casa a noite. Preferiam sair. Ir para o bar, fumar e beber cerveja, com a mania que eram crescidos.
O meu pai sempre me disse que não precisava dessas coisas para ser grande, mas os meus amigos diziam que era uma míuda. E depois começaram a chamar-me menina do paizinho. Parvos.
Foi assim que me comecei a chatear com o meu pai. Ao princípio ficava só triste por não sair e por ser gozada, mas depressa percebi que o problema era o meu pai. Afinal de contas, se todos podiam sair porque é que eu tinha de ficar em casa?
Parvo! Bem que me podia ter deixado sair. E daí se calhar ele só me fazia era bem, afinal estou fora nem há um ano e fiquei neste estado. Que merda!
A minha vida é uma merda.
Na escola sempre me dei bem com os professores, afinal de contas era estudiosa e o meu pai sempre me ensinou as coisas de engenharia lá dele. Adorava mexer no computador com os programas de 3D dele. Olho para a minha pulseira. Fí-la lá, com ele. Desenhamos a pulseira e depois ele mandou fazê-la. É mesmo bonita. Tenho saudades tuas pai. Se ao menos pudesse voltar para ao pé de ti. Se ao menos me pudesses ajudar.
Nem quero imaginar o que ias fazer e dizer se me visses assim. Nem consigo imaginar o que as pessoas dirão e pensarão de mim quando virem que estou grávida.
Que merda.
E depois chegou o 11º ano. Estava completamente farta do meu pai, de ele ser tão controlador. E da escola, cada vez era mais gozada.
O final do terceiro ciclo e o início do secundário foram a pior altura da minha vida. Passei da miúda mais popular com as festas fixes para a "menininha do papá". Passei da miúda que era bué esperta e que sabia tudo para a graxista que lambe as botas dos professores. Amigos de merda.
Odiava a vida.
Tive de sair.
Fugir de tudo antes que decidisse por um fim a tudo isto.
E para quê? Mais valia ter posto um fim a tudo isto.
Vou até à casa de banho e tapo o ralo da banheira. Abro a torneira da água fria.
Começo a despir-me.
E depois de ter saído de casa? Não foi nem ainda há nem um ano. O meu pai procurou-me e procurou-me bem. Tive de fugir para longe. Foi assim que vim parar ao Porto. Sabia que ele ia procurar pela Nazaré e depois por Leiria. Até pode mesmo ter ido até Lisboa e se calhar até já esteve aqui no Porto. Mas duvido. Escolhi o Porto porque sei que é rebuscado. Sei que não seria nem a minha primeira escolha, nem a dele.
Vivi das minhas poupanças e de um part-time que arranjei. Dava para sobreviver. E a vida à noite? Que coisa louca. Beber, fumar, ressacar. Nunca me senti tão viva. E tão morta.
Desligo a torneira e deito-me na fria banheira. O conforto de um banho frio. O conforto da água fria. Deixo-me estar um pouco na água.
Mergulho a cabeça.
Há quatro meses atrás, numa dessas noites, depois de tantos copos, pagos e oferecidos tive um black out. Não me lembro do que aconteceu. Acordei nas traseiras de um bar. Como não estava mal nem com marcas, só com uma grande ressaca, decidi ir para casa. Afinal, ir ao hospital podia ser mais uma maneira de o meu pai me descobrir.
Agora não importa. Sou a Maria da Nazaré, 18 anos, mãe de imaculada conceição. Sou a virgem Maria do século XXI e quando o ar se acabar nos meus pulmões, hei de manter a minha virgindade perpétua.
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2 comments:
gosto mt do teu texto, soubeste mm bem por-te na pele da pobre rapariga!
O final está mt bom, aquela comparaçao à "virgem" Maria está excelente! Realmente, ela teve um filho """sem nunca ter tido relações"""...
Continua!
Gostei do texto, bastante vivo e parcial (como se quer a opinião de uma pessoa) Penso que te deixaste vencer pela pressa de acabar mais para o final do texto.
No entanto, é bastante boa a analogia com a virgem Maria e toda a situação descendente da rapariga.
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